NÓS E OS OUTROS: O RESPEITO À ALTERIDADE NO DISCURSO POÉTICO DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

Maria da Conceição Oliveira Guimarães – UFRN

 

 

Com o primeiro livro publicado em 1944, aos 20 anos de idade, numa edição de autor financiada pelo pai, Sophia de Mello Breyner Andresen iniciou uma produção literária que se reparte, muito significativamente, pelos domínios do conto infantil (O Rapaz de Bronze, A Menina do Mar, A Fada Oriana, Noite de Natal, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Tesouro e A Árvore), do conto para “crianças grandes” (Contos Exemplares e Histórias da Terra e do Mar), dos ensaios (Cecília Meireles, Poesia e Realidade e o Nu na Antigüidade Clássica) e da poesia, que é o objeto desta comunicação.

Tratando-se da obra poética de Sophia, encontramos reunidos em “Obra Poética I” (1990), os livros Poesia, Dia do mar e Coral; EmObra Poética II” (1991), No tempo dividido, Mar novo e Livro sexto e, em “Obra Poética III” (1991), Geografia, Dual, O Nome das coisas, Navegações e Ilhas. Na sua poesia, Sophia traça verdadeiros “depoimentos” acerca de sua experiência enquanto ouvinte, recitadora e leitora de poemas. Faz-se necessário ainda, destacar ou inscrever essa obra poética dentro de um contexto de tradição com desdobramentos poéticos num fluxo universal, cujas modulações particulares lhe dão forma. Em Poesia, Dia do Mar e Coral, poemas escritos entre1944 a 1950, a nostalgia e o desejo de regresso à natureza se sobrepõem à problemática das relações humanas; em No tempo dividido, Mar novo e Livro sexto, escritos entre 1954 a 1962, há uma intenção voltada para a história em que a poesia se divide entre a revolta e a esperança; já em Geografia (1961), Dual (1972), há uma celebração aos lugares e monumentos, sobretudo gregos e uma meditação sobre a arte. Em O Nome das coisas (1977), a poesia está diretamente associada ao 25 de Abril[1], tendo como centro a afirmação de um projeto político nacionalista, a decepção e a necessidade de recomeço desse projeto. Navegação (1983), mostra que sua aventura poética, exposta na unidade temática, coincide com a aventura das descobertas marítimas e o desejo do desconhecido que permeou os sonhos dos portugueses.

Percorrendo a obra poética de Sophia Breyner, abrem-se aos nossos olhos várias reflexões sobre diversos temas, como o mar, a morte, o amor, o antigo e as desigualdades e injustiças sociais. Esse último tem ocupado lugar de relevo na sua mais recente produção poética, Musa, 1994. A voz que se levanta dentro desse projeto político nacionalista aponta para a necessidade do reconhecimento da diversidade humana e do respeito ao universalismo cultural. Em Musa, encontramos o poema “TÃO GRANDE DOR”. Esse poema é uma espécie de glosa sobre as palavras de um timorense extraídas de emissão radiofônica. “Tão grande dor para tão pequeno povo”. Palavras que da boca de um timorense, aproximam-se de um lamento no qual fica evidente, através dos vocábulos antitéticos, grande/pequeno, a desigualdade dos acontecimentos. O eu poético breyneriano transforma esse lamento em convocação universal a um mundo indiferente sobre a ferida exposta do conflito separatista do Timor Leste.

Antes de fazermos a leitura desse poema, procuraremos ilustrá-la com uma fábula da mitologia grega, que tenta explicar a origem das guerras entre os homens. Essa fábula é uma espécie de mito político: a fábula sobre a origem de três espécies de homens. Certa vez, ao filósofo Sócrates foi perguntada a razão de tantas guerras que ocorriam naquele tempo. Ele explicou que haviam existido três tipos de homens: os de bronze, os de prata e os de ouro. Os de bronze tinham sido criados com o metal vil, o bronze e, portanto, tinham sido feitos para trabalhar. Os de prata seriam aqueles constituídos de um material mais nobre, criados para legislar. Os de ouro teriam sido criados para governar.

Transportando essa fábula para os nossos dias, poderíamos afirmar que, politicamente, os homens se comportam dentro de uma fábula semelhante, ou seja, os homens continuam sendo vistos de uma forma diferenciada e obedecendo a uma hierarquia. Há os homens para governar e os homens para serem governados. Nesse momento, é preciso ainda lembrar um texto de Todorov[2] que nos fala sobre o choque psíquico criado pelo encontro intercultural quando do contato com civilizações de princípios diferentes. Assim, os grandes impérios colonialistas sempre seguiram referências internas próprias. Idéias, opiniões, costumes que fossem diferentes daqueles de seu próprio país eram consideradas atitudes “bárbaras”. Sob esse ponto de vista etnocêntrico do invasor, muitas nações tiveram sua cultura arruinada. Se o etnocentrismo, como diz Todorov, segue a linha do menor esforço e procede de maneira não crítica, i.e: crê que seus valores são os valores e isso lhe basta, então podemos inferir que a noção de humanidade é paradoxal: O civilizado é o selvagem e o selvagem é o civilizado. Como podemos perceber, essa inversão é constantemente operada nos conflitos entre colonizados e colonizadores. Nesse quadro, quem comete a barbárie é o que se diz civilizado, em nome de uma cultura que acredita na pseudonecessidade de manter o nativo sob controle. Nesse jogo, onde vence sempre o opressor, o que tem o poder, não há espaço para o respeito ao “outro”, ao diferente do “eu”. É nessa linha que fazemos a leitura do poema breyneriano, em defesa daqueles que foram lançados às margens da exclusão. Como um dissidente lutando para não sucumbir, a voz de Sophia se levanta contra as injustiças sócias e a sangrenta anexação do Timor Leste à Indonésia. Veja-se o poema, transcrito a seguir:

 

Tão grande dor

 

“Tão grande dor para tão pequeno povo”

Palavras de um timorense à RTP

Timor fragilíssimo e distante

“Sândalo flor búfalo montanha

Cantos danças ritos

E a pureza dos gestos ancestrais”

Em frente ao pasmo atento das crianças

Assim contava o poeta Ruy Cinatti

Sentado no chão

Naquela noite em que voltara da viagem

Timor

Dever que não foi cumprido e que por isso dói

Depois vieram notícias desgarradas

Raras e confusas

Violência mortes crueldades

E ano após ano

Ia crescendo sempre a atrocidade

E dia a dia – espanto prodígio assombro –

Cresceu a valentia

Do povo e da guerrilha

Evanescente nas brumas da montanha

Timor cercado por um muro de silêncio

Mais pesado e mais espesso do que o muro

De Berlim que foi sempre tão falado

Porque não era um muro mas um cerco

Que por um segundo cerco era cercado

O cerco da surdez dos consumistas

Tão cheios de jornais e de notícias

Mas como se fosse o milagre pedido

Pelo rio da prece ao som das balas

As imagens do massacre foram salvas

As imagens romperam os cercos do silêncio

Irromperam nos écrans e os surdos viram

A evidência nua das imagens

 

Esse poema é composto de trinta três versos livres e ritmo solto, organizados em estrofes irregulares cujo efeito dá a impressão de vertigem, um quase desfalecimento diante da indiferença humana. A inexistência de pontuação imprime-lhe um andamento por vezes acelerado e como que operacionalizado na urgência de se fazer escutar uma espécie de grito de socorro. Em outras vezes, essa tensão acelerada se quebra e em seu lugar surge um ritmo mais lento transmudado na denúncia diante de um mundo silencioso e inerte. Identificando-se nos versos certos momentos diferenciados da situação global vivida pelo Timor, nas convulsões internas e externas, vislumbramos situações nas quais a poetisa descreve de forma coloquial toda a história que vai desde o início da história do Timor até aos nossos dias, quando o mundo reconheceu o seu direito à autodeterminação. Tudo está disposto pela poetisa, numa construção linear de formas claras e precisas, desde a cultura, a colonização e a descolonização, o projeto de independência, a indiferença e o descaso do mundo a este projeto e, finalmente, a sua  realização como um “milagre pedido”.

O primeiro verso que abre o poema, “Timor fragilíssimo e distante” começa com a palavra Timor, que em língua malaia quer dizer “Oriente”. Oriente, lugar geograficamente distante e temporalmente longínquo em relação ao eu poético, todavia, psicologicamente próximo de um passado de conquista e expansão portuguesa. Conforme a disposição formal, esse verso se configura como a capa de um livro de histórias sobre um Timor primordial onde ainda havia a natureza intocada e o seu povo autóctone ainda não tinha sido desrespeitado em suas crenças. Liga-se a segunda estrofe “Em frente ao pasmo atento das crianças/ Assim contava o poeta Ruy Cinatti/ Sentado no chão/ Naquela noite em que voltara da viagem”, que, por sua vez, forma a contracapa desse mesmo livro A história que está intercalada entre essas duas partes é: “Sândalo, flor búfalo montanha/ Cantos danças ritos/ E a pureza dos gestos ancestrais” assinalada com aspas porque traduz a história pré-colonial do Timor Leste: história de um povo que ainda não tinha causado estranheza ao invasor e o invasor ainda não tinha declarado o assassinato do seu “eu” social; história contada pelo poeta Ruy Cinatti[3] a crianças numa maneira ancestral, “sentado no chão”. Como podemos perceber nessa “narrativa” há uma abundância de substantivos concretos, sugerindo a particularização de um momento.Essa particularização diz respeito ao instante da lembrança de um Timor em que suas lendas e sua cultura eram ainda preservadas e respeitadas.

Sabemos que uma das primeiras referências aos nativos do Timor Leste data de 1514 e está expressa na descrição feita pelo português Rui Brito que enviou carta ao Rei D. Manuel, dizendo:  "Timor é uma ilha além de Java, abundante de sândalo, mel, cera, e não possui barcaça para navegação (...)”. Nessa passagem descritiva sobre um Timor primitivo, oencantamento pelo exótico e o sentimento telúrico atestam o lado desbravador e mercantilista do colonizador português, e não representa qualquer responsabilidade pelo povo que conquistou.

O segundo momento encontrado no andamento poético traduz-se pela convulsão interna portuguesa. Esse momento é de conscientização sobre o dever que não se concretizou. A dimensão ética de Sophia Breyner não exclui o combate explícito pela justiça e esse dever está inscrito de forma contundente nessa estrofe de dois versos: “Timor/ Dever que não foi cumprido e por isso dói”. Observando-se os tempos verbais do décimo verso, temos a voz passiva “não foi cumprido” marcando o fracasso no justo processo da defesa dos direitos humanos. O presente do indicativo “dói”, indicaria a cristalização da dor que se atualiza a cada momento que é lembrada.

A quarta estrofe possui um andamento em que a força brutal e sanguinária da invasão Indonésia se faz ouvir pela voz da poetisa que, em sua palavra torna mais evidentes esses conflitos. Primeiramente, observemos as aliterações no corpo desta estrofe: “Depois vieram notícias desgarradas/ Raras e confusas/ Violência mortes crueldades/ E ano após ano/ Ia crescendo sempre a atrocidade/ E dia a dia – espanto prodígio assombro - /Cresceu a valentia/ Do povo e da guerrilha/ Evanescente nas brumas das montanhas”. A junção das consoantes vibrantes [r] [ř], das oclusivas bilabiais [p] e [b] e das linguodentais [t] e [d] formam fonemas tensos que nos remetem à imagens de objetos cortantes, cheios de quinas, sons surdos e sonoros alternados como um ricochetear de balas. Nos oitos versos que compõem essa estrofe encontramos somente três verbos. Dois dos quais no pretérito perfeito, “vieram” e “cresceu”, que dão a idéia de acontecido, de findo. Entretanto, a forma nominal no gerúndio “crescendo” indica uma ação permansiva num momento rigoroso. A idéia de uma ação permansiva, imposta pelos tempos verbais, nos levam a inferir um movimento inconcluso de ida e volta dentro do tecer poético e, ao mesmo tempo, percebemos o mesmo movimento no desenrolar do conflito timorense.

As duas estrofes seguintes, propõem uma parada na tensão do ritmo da estrofe anterior. “Timor cercado por um muro de silêncio/ Mais pesado e mais espesso do que o muro/ De Berlim que foi sempre tão falado/ Porque não era um muro mas um cerco/ Que por um segundo cerco era cercado/ O cerco da surdez dos consumistas/ Tão cheios de jornais e de notícias”. A voz poética anuncia a existência de dois muros: Um concreto, real, visual, falado e por isso excessivamente sonoro. O mundo o conhecia e dele se envergonhava. O outro muro, o contrário. Mostra-se hipotético, volátil, porém não menos real e vergonhoso: o muro do descaso e do silêncio. Um silêncio que penetra nos ouvidos e os torna surdos, que penetra nos olhos e os cega e que como um ar pestilento, deixa seu rastro de morte. Aqui, mais uma vez, a aliteração é um recurso do qual se utiliza a poetisa para imprimir um signo sonoro interjetivo “psiu” do pedido de silêncio. Atentemos para o fonema [s] das palavras “cercado”, “silêncio”, “mais”, “espesso”, “sempre”, “mas”, “cerco”, “segundo”, “cercado”, “surdez”, “dos”,  “consumistas”, “cheios”, “jornais”, e “notícias”.  Ele está pretensamente implícito no som do silêncio. Entretanto, esse efeito é modulado pela poetisa e torna-se, paradoxalmente, invertido o paradigma. A repetição da  fricativa alveolar surda [s], transforma-se no som da fricativa alveolar sonora [z] que se transforma em ressôos que invadem o ar e as consciências, acordando-as da letargia em que se encontram.

Toda a estrofe final, desfecho do poema, é por analogia, o desfecho do conflito timorense. O contrapondo desse clima é exatamente a última estrofe que se inicia com uma adversativa “mas” quebrando todo um sentimento de expectativa ao fracasso do projeto de autodeterminação timorense. O silêncio e o descaso, que por 24 anos de dominação indonésia permitiu a morte de milhares de pessoas, finalmente, acumulou ressonâncias na indiferença humana. Ressaltemos as palavras “imagens” que, numa espécie de lusco-fusco trocam de função sintática. “Mas como se fosse o milagre pedido/ Pelo rio da prece ao som das balas/ As imagens do massacre foram salvas/ As imagens romperam o cerco do silêncio/ Irromperam nos écrans e os surdos viram,/ A evidência nua das imagens”. A princípio, a palavra “imagem” aparece no poema como paciente da ação: “As imagens do massacre foram salvas”, logo em seguida, ela surge como sujeito da ação: "As imagens romperam os cercos do silêncio”, no verso seguinte ela continua sendo sujeito da ação mesmo estando elíptica: “Irromperam no écrans e os surdos viram”; no último verso, a palavra imagem apresenta uma ligação sintática com verso anterior (um enjambement), e muda novamente de função e passa a ser o objeto da ação: “e os surdos viram/ A evidência nua das imagens”. Ao ser paciente de uma ação, as imagens necessitavam de alguém para mostrarem-se ao mundo. Uma vez mostradas, vistas,  as imagens se tornariam sujeito e o meio pelo qual essa ação toma corpo. Nessa ordem de idéias, a voz da poetisa provém da intuição aguda e da intensidade de sentimento de um eu lírico em face de um mundo que continua etnocêntrico. O eu poético tenta ajudar a romper, na resistente cultura imperialista, com o modo convencional de perceber e julgar os seus semelhantes.

É curioso notar que reiteradas vezes a palavra Timor é enunciada. A repetição poética aqui se configura numa linguagem agônica que, ora é a evocação ao saudosismo exótico “Timor fragilíssimo e distante”, ora o lamento pelo dever histórico não cumprido para com o Timor: “Dever que não foi cumprido e por isso dói”, ora a denúncia “Timor cercado por um muro de silêncio”.

Na composição histórica da colonização, os povos colonizados tiveram sua herança cultural fortemente desrespeitada. Daí o surgimento de conflitos para a reconstrução de sua identidade. Encontrando nessa luta a oponência não apenas do colonizador, mas, paradoxalmente, “do seu igual que, necessitando relacionar-se com o “Outro”, cala-se desrespeitando seu próprio “Eu.”[4] Nesse teatro desumano, onde o massacre cultural, a busca de poder e a negação de valores autóctones representam o fascínio do invasor, num discurso velado de que certos povos “precisam e imploram pela dominação”[5]. Entretanto, encontramos outras vozes que representam o comprometimento ideológico e o respeito à alteridade desses povos “dominados[6], porém, felizmente, insurretos.

Em tal contexto, o discurso poético de Sophia de Melo Breyner Andresen levanta-se em reconhecimento da diversidade cultural e da autodeterminação do povo timorense, então marcado pela crueldade do poder.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Musa. Lisboa: Editorial Caminho S.A , 1994.

 

LARROSA, Jorge. LARA, Maria Perez. (orgs) Imagens do outro. Trad. De Celso Márcio Teixeira. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

 

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Trad. De Denise Bottman. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995

 

TODOROV, Tzvetan. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana – 1. Trad. De Sérgio Góes de Paula. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993



[1] Com o 25 de Abril de 1974, dá-se em Portugal a pacífica “revolução dos cravos” que termina com uma ditadura de 48 anos. Abrem-se as portas à liberdade e à democracia. Na conseqüência desse golpe todas as províncias ultramarinas portuguesas podem percorrer o caminho da autodeterminação, para se tornarem países livres, soberanos e independentes.

[2] Todorov, Tzvetan. Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Trad. Sergio Góes de Paula. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. p-21

[3] Ruy Cinatti, poeta português. Autor de obra poética de temática timorense e de relevantes estudos antropológicos sobre o Timor Leste.

[4] Larrosa, Jorge. Lara, Maria Perez. (orgs) Imagens do outro. Trad. De Celso Márcio Teixeira. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. p.162-169

[5] Said, Edward W. Cultura e imperialismo. Trad. De Denise Bottman. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.40

[6] ib id